De todas as virtudes, talvez a mais difícil - em todos os aspectos – seja a fidelidade. Afinal, se ser infiel é ser esquecediço – pois, a fidelidade é a virtude da memória -, nem sempre ser fiel a algo ou alguém faz disso uma virtude ou até mesmo sinal de sabedoria. Não há como jurarmos por nossos sentimentos no futuro, já que isso é algo que foge do nosso controle e, mais que tudo, qual seria o sentido de se manter sempre fiel a algo que já perdeu seu significado? Ser fiel incondicionalmente já está mais para fanatismo que para virtude, já que esta sempre pede por bom senso e discernimento. (E talvez todos os males do mundo sejam consequências de problemas de semântica).

 

Não que eu fosse cliente a ponto de ser merecedora de um cartão-fidelidade-golden do Nippon -restaurante localizado na 403 sul-do-inferno-pra-estacionar e considerado por muitos ” o melhor japonês de Brasília” – mas costumava frequentá-lo no ano passado e ele figurava no meu TOP five da semana.

 

Como o forte de Brasília é o turismo gastronômico, nas duas semanas em que a-minha-mãe-preferida (aquela que me pariu) passou na minha casa (que na verdade é um apartamento) foi aquela correria bem-servida e calórica. E foi a noite de quarta do roteiro que reservei para passarmos uma hora na fila de espera do Nippon. A fila é o primeiro item do menu “entradas” do Nippon e costuma sempre variar de 40 minutos (nunca menos que isso) a uma hora.

 

Lá por volta de dez e pouco da noite, conseguimos uma mesa e daí pra conseguir ser atendida por um garçom levou mais um tempinho. Ultimamente, tenho sonhado com isso: http://fotos.estadao.com.br/restaurante-hi-tech-restaurante-alemao-substitui-garcons-por-computadores-e-trilhos,galeria,120,2972,,,0.htm?pPosicaoFoto=5. Na minha listinha do você-tem-direito-a-três pedidos, penso em substituir a paz mundial pelo atendimento high tech (que no fim, teria mais ou menos a mesma proporção de bem à humanidade – brasiliense, é claro. Mas não dizem tanto pra “pensar global e agir local”?).

 

Optamos pelo rodízio e preenchemos as folhinhas de pedidos com toda a fome de quem passou uma hora na fila. Como dizia Betinho, quem tem fome tem pressa. E parecia que só nós tínhamos fome e também pressa. Depois de mais uns vinte minutos, chegou algumas coisas que tínhamos pedido de entrada. Em seguida, o sashimi e sushi. Devido a minha aguçada capacidade de percepção e agilidade matemática, percebi que tinha algo estranho com o pedido. Das 21 peças de salmão que pedimos, só vieram 9. Foi quando eu fiz a imensa besteira de comentar isso ao garçom enquanto ele nos servia. Daí ele retirou o prato e levou pro sushiman contar de novo e consertar. Mais tempo de espera.

 

Pedi mais wassabi pro garçom e não tenho muita certeza se foi isso, minha reclamação das contas do sushiman ou minha mãe ter perguntado sobre o oshibori que eles não oferecem - ou tudo isso – que despertaram uma antipatia do garçom que resolveu meio-que-me-ignorar. E quando o chamei para reclamar que o missoshiru não veio, ele me aconselhou  “pede de novo, então!”. Obedeci. Pede folhinhas de novo, preenche de novo, pede missoshiru de novo. Nova espera. De novo as coisas vindo fora de ordem. Entrada, sashimi, entrada, sushi, entrada. E nada de missoshiru. Mas aí já estavam limpando as mesas, apagando as luzes e fechando as portas.

 

Chamei o garçom pra pedir a conta e pedi pra “cancelar o missoshiru”, tipo aquela última chance de salvar sua dignidade depois de ter seu orgulho ferido. Fiquei a base de guaraná antartica mesmo. Fail total.