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Conta a lenda bíblia que numa época em que todos os homens falavam a mesma língua, ou seja, há muito tempo atrás, um povo tentou dar uma de MST movimento social e tentou construir uma torre alta o suficiente para invadir alcançar o reino dos céus. Daí que o lantifundiário Deus-todo-poderoso ficou bem chateado com tudo isso e achou que já tava virando palhaçada. Então, de pegadinha e vingancinha, fez com que as pessoas começassem a falar línguas diversas, o que criou uma confusão imensa em que ninguém entendia mais ninguém e tiveram que parar as obras (queria ver uma auditoria do TCU aí no caso, mas eram outros tempos).
Não que eu seja do tipo mística-quase-cigana-traz-o-amor-em-três-dias ou que acredite nessas coisas. Não acredito que o nome possa influenciar fortemente o caráter ou personalidade de uma pessoa. Mas quando estive no restaurante Babel, localizado na 215-sul-ruim-de-estacionar, juro que quase acreditei. Só faltou a torre para me convencer.
Com uma proposta de cozinha contemporânea, o lugarzinho tem tudo para ser um lugar legal. Mas não é. Nem só de potencial vive o homem. Ou os negócios. A primeira visita foi ainda durante o restaurante week. Média de três horas entre ser atendido, garçom anotar o pedido, vir a salada, garçom perceber que pode retirar a salada, garçom perceber que pode trazer o prato principal, garçom perceber que todos estão satisfeitos, garçom perceber que estão lhe chamando, garçom lembrar a sobremesa, garçom fechar a conta e – ufa! – trazer a conta. Conseguimos sair ainda com a luz do sol. O principal comentário à mesa foi “talvez eles não estejam devidamente preparados para um evento grande como o restaurante week”. Afinal, o restaurante estava lotado.
A volta – sou brasileiro e não desisto nunca – foi duas semanas depois, já não no restaurante week, agora no festival de risotos oferecidos pela casa. Ambiente tranquilo, nada de muita gente, sem filas. Sentamos desta vez na área externa e várias primeiras impressões se confirmaram. As toalhas de mesa estavam amassadas e mal passadas de novo. O garçom demorou para nos atender de novo. Os risotos demoraram para serem servidos de novo. Os pratos não eram bem servidos de novo (O acompanhamento de farofa do restaurante week era uma porção de colher de sopa. E rasa). Quase três horas para almoço de novo. Peço outra garrafa de água mineral sem gás que nunca vem. Chamamos o garçom.
- Pois não?
- Lembra a água dela?
- Ih…. (cara de quem tinha esquecido)… lembro…
- Então, agora esquece. Traz a conta, por favor.
- Desculpa.
Depois de vinte minutos, desistimos. Levantamos e vamos ao caixa buscar nossa conta. Daí que me dou conta da peculariedade do babel. Três garçons para atender todo o restaurante. Algo como 15 ou 20 mesas. Três para recepcionar, anotar, trazer pedido, levar pedido, retirar pratos, servir pratos, fechar conta, levar maquininha, trazer troco. E se duvidar, ainda lavam toda a louça no final. Sai com a certeza de que não voltaria mais. Quer ter poucos garçons? Abre um self service. Se bem que até em self service tem uma pessoa designada para cuidar só do caixa. Cansei dessa contemporaneidade, quero romantismo, please.
Não volto e não recomendo.
Ano novo, vida nova. E na minha lista de promessas-para-2010, logo abaixo de “entrar na academia”, está “ter uma vida saudável”. E é sério. Eu sei, ninguém acredita. Até parei com a desculpa da alergia: “Não, obrigada. Não como frutas, tenho alergia”. Diminuí o sal da comida e estou reaprendendo a saborear a comida decentemente. Ou seja, sem entupir de temperos que disfarçam o real sabor das coisas, principalmente das coisas que são verdes.
Outra mudança é que agora peço água – e não mais refrigerante – para acompanhar as refeições. Bom, tudo isso tem acentudado e muito o meu paladar para os sabores das coisas. E junto com meu paladar, o gosto das coisas e meus gostos também começaram a mudar. Foi nesse estado de espírito que me joguei no roteiro do Restaurante week deste quadradinho que chamam de Capital Federal.
A taberna do infante (que li erroneamente como “taberna do infarte” na primeira vez e depois saí falando em voz alta como “taberna do infame” pra cima e pra baixo) fica localizada na 408 Norte-não-é-a-mais-fácil-pra-estacionar, do lado de trás da comercial, logo ali pra baixo do pôr-do-sol, escondidinho num cantinho bonitinho, arrumadinho e bem aconchegantezinho. Não, esse monte de “inho” aí não é porque estou escrevendo num jeito-mulherzinha-de-ser. O “inho” é porque o lugar é pequeno mesmo. Tipo sete mesas no máximo. A taberna é tudo aquilo que aparece na foto e só. Mas como não estava lotado, pareceu agradável. Ou agradavelzinho, como preferir.
Optamos pelo cardápio do restaurante week que chegou ao final de sua primeira semana. Bolinho de bacalhau como entrada, bacalhau ao zé do pipo como prato principal e pastel de belém como sobremesa.
Bolinho de bacalhau perfeito, apesar de discordâncias na mesa: a outra ponta achou que faltou sal. O bacalhau cozinhado no azeite de oliva coberto de maionese e gratinado com purê de batata para quem gosta muito de batata, como eu, estava muito bom, apesar de opinões em contrário. Realmente, a quantidade de bacalhau no prato é reduzida, mas para mim, que estou nesta coisa toda de pouco-sal-e-vida-saudável agradeci pelo não-excesso. Apesar de não constar no cardápio do restaurante week, um arroz bem temperadinho acompanha o prato.
O garçom nos atendeu de uma forma EXTREMAMENTE atenciosa e gentil, como se tivéssemos cinco anos de idade cada uma. “Tratem de comer tudo, senão vou contar pras suas mães!”. Como não gosto de pastelzinho de belém, pensei que teria em jogá-lo no vaso de planta ao lado da mesa para evitar uma bronca do garçom. Fora essa tentativa excessiva de parecer simpático, atendimento excelente do garçom com algo que muitas vezes falta neste segmento em Brasília: visão periférica do ambiente.
Talvez a única bronca que ficou disso tudo é que eles ainda não trabalham com a “Nota Legal” que, afinal, não é tão legal assim porque agora que dá pra consultar o saldo no site, todo mundo está sentindo falta de várias notas não lançadas no sistema. E caso você não seja um ex-analista-da-CGU que guarda todas as suas notas desde o início do programa em uma planilha organizada por data e salvas também numa planilha excel (salve Mateus!), deve estar sentindo a mesma frustração das pessoas como eu, que jogam foram notas fiscais e segundas vias do cartão em todo dia de faxina e agora não tem como fazer a reclamação naquele linkizinho do site porque não tem o número da nota fiscal e o nome do estabelecimento. A nota legal quer que eu seja fiscal auditor do GDF sem direito a subsídio ou remuneração. Derrota, véio, derrota!







