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Às vezes simplesmente não conseguimos compartilhar o mesmo sentimento de empolgação que os que estão a nossa volta, não é mesmo?

Foi o que aconteceu na minha segunda série com os Cavaleiros do Zodíaco. Eu não conseguia entender a graça do “Meteoro de Pégasus”…

Também foi o que aconteceu na minha sétima série com os skates de um lado, com o rock revoltado de outro e com o pagode de outro. Simplesmente não me empolgava com as conversas sobre rolamentos, Legião Urbana e o último passinho da dança do momento (“cuidado, tubarão vai te pegar!”), assuntos que permeavam as conversinhas de corredor.

Naquela época eu não me sentia confortável em ser diferente dos outros. Na verdade eu me achava até um pouco estranho por não conseguir ver graça nesses assuntos que para os outros eram tão caros. Mas o tempo passou e eu evoluí. Percebi que as pessoas são diferentes e que não há problema algum em mim se eu não gostar de Meteoros de pégasus, ou de choramingar que “ela se jogou da janela do quinto andar” ou até mesmo de esfolar no asfalto ao cair de um skate.

Bem, você deve estar se perguntando o porquê da enrolação toda pra começar a falar do restaurante… É que faz um mês que fui novamente ao Cornhills Coffee, localizado na 202 Sul e, bem…

A casa não estava cheia (cheguei no fim da tarde, umas 17h30, se não me falha a memória) e pude escolher minha mesa e sentar-me confortavelmente. Os garçons me atenderam normalmente. Fiz meu pedido (uma salada) e o Gabriel pediu o combo de café da manhã com panquecas, frutas grelhadas, ovo frito e bacon…

Olhei a minha volta e as pessoas que estavam lá pareciam estar gostando. Um senhor lia seu jornal, calmamente. Uma mulher trabalhava em seu laptop, compenetrada. Um grupo de três amigos estava conversando e se divertindo numa mesa próxima a minha…

Demorou um pouquinho, mas chegaram os pedidos.

O prato do Gabriel veio muito bom! Igualzinho o da foto (o bacon estava gostoso até, mas devo dizer que fizemos essa ressalva ao pedir ao garçom, queríamos bacons com carne, nada de só gordura). As pancakes eram autênticas pancakes inglesas (não que eu saiba como é uma autêntica pancake, mas o Gabriel me disse que é desse jeitinho mesmo…).

O problema, dessa vez, foi no meu prato. Por que cargas d’água eu fui escolher uma salada com gorgonzola e presunto parma? Enquanto fui comendo minha salada eu comecei a sentir um gosto estranho… Como tinha um monte de queijo gorgonzola, meu paladar ficou meio prejudicado e eu fiquei achando que era do queijo que vinha aquele gosto diferente… Quando já estava na metade do prato, eu pedi ao Gabriel pra ver se ele sentia algo de estranho na minha salada e foi aí que descobrimos: o presunto tava estragado! Assim, nada de mal cheiroso ou coisa do tipo (se bem que o queijo pode ter camuflado o odor do presunto), mas o presunto tava com um gosto rançoso, sabe?

Foi nesse momento que eu percebi que essa casa, que foi objeto de minha simpatia desde a primeira vez que vi, simplesmente não foi não foi feita pra mim. Talvez aquelas outras pessoas possam conseguir ver a graça do Cornhills Coffee, mas para mim já era. Vai ficar no porão das lembranças junto do “meteoro de pegasus”, do “carrinho de mão, badá, badá, badá” e do “Eduardo e Mônica”.

PS1: O Cornhills serve pratos executivos a 10 reais no almoço. Talvez seja uma boa opção para aqueles que trabalham na redondeza e que já se cansaram de comer no self service ao lado, que, segundo o Gabriel, é mais gostoso, mas pode cansar com o tempo…

PS2: Apesar de ser gostoso, acho caro o preço do combinado de café da manhã (por volta de 18 reais, novamente, se não me falha a memória).

 

 

 

 

 Há uma máxima no Ministério do Turismo de que os brasileiros não conhecem as belezas de seu próprio país. O que não deixa de ser tão absurdo quando se pensa nas dimensões extra large de nossa terrinha-quase-continente. Algo quase digno de uma redução de estômago, mas impedida por nossa menina-moça-tantas-vezes-violada Constituição. Bastou para o fim dos diversos movimentos separatistas “o Sul é nosso país! Mas se São Paulo quiser, será bem vindo”.  Isso sem falar que pra viajar é preciso dinheiro e, bem, há a tal das desigualdades sociais gritantes e cinematográficas indicadas ao oscar de melhor filme estrangeiro.

 

Fato é que realmente conhecemos pouco o que nos é – muitas vezes – próximo. É longe de casa que pensamos “não posso ir embora de Salvador sem subir e descer demais  a ladeira. Mas quando a ladeira está na nossa própria cidade, bem, não fazemos tanta questão. No livro “Banquete” de Platão, Sócrates diz que paixão é falta. Somos apaixonados por tudo aquilo que nos falta e não nos pertence. E quando, enfim, a possuímos, viramos de lado e cochilamos já cansados e quase enjoados. Ou como dizem, a grama do vizinho sempre é mais verde. Ou mais íngrime a ladeira.

 

Depois de se aventurar e falar tanto nos bares de outros bairros, paro para falar um pouco sobre o Café São Jorge, localizado quase no quintal de casa, na 101 do Sudoeste-não-há-vagas-nunca-para-estacionar. Uma quadra em que é quase impossível definir os limites exatos dos bares-lotados-de-segunda-a-segunda que se estendem lado a lado por toda a comercial. Barzinho estiloso, aconchegante e confortável, mesmo amontoadinho entre tantos outros.

 

Nunca vazio, mas ao mesmo tempo, nunca lotado a ponto de não se conseguir mais mesas para sentar. Sentamos e pedimos o de sempre: um bom e gelado chopp. Nos telões distribuídos pelo bar, o dvd Antena 1 FM. Nada como assistir clips toscos de músicas adoráveis entre um chopp e outro. Belisco uma porção de pastel gorduroso que me faz lembrar os bares da avenida Munchen da época da faculdade. Uma noite perfeitamente nostálgica.

 

Entre conversas sobre a vida, estilo filosofia-de-bar, chamamos o garçom para reclamar que o quibe veio totalmente tostado. Tentei, mas estava intragável. Recebo um pedido de desculpas e o cancelamento do pedido sem nenhuma palavra de agressão ou de tentativa de justificativa. Tenho realmente uma boa vizinhança, penso. Talvez devesse estreitar laços e valorizar mais o que está aqui ao lado. Pedimos a conta e terminando a noite no bar de um bairro distante. Acabo me deixando levar pela falta. Preciso mesmo é aquietar e logo.

 

Chego em casa e registro: chamar sempre pelo garçom Wanderson do Café São Jorge. Atendimento perfeito, algo raro nesta cidade. Adormeço e acordo às quatro da madrugada apreensiva. Esqueci algo fundamental que aprendi nesta noite. Tomar dois copos de água antes de dormir. Evita a ressaca. Funcionou.

 

Anote: garçom Wanderson e dois copos de água antes de dormir. O fim das suas dores de cabeça.

Volto e recomendo. 

 

 

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